segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Lembranças

Houve uma época na minha infância que considero muito idiota/estranha/reveladora. Já era coisa de quem queria escrever. Era coisa de quem escrevia. As agendas eram transformadas em diários ou algo parecido. Eram um grande convite, uma grande possibilidade. Mas... Cada página daquela era também uma pressão, uma ordem, a necessidade de preenchimento com rabiscos.

E acabavam ganhando mesmo não mais do que rabiscos, muitas vezes. Rabiscos com os quais a criança esperava afastar a culpa e dar a impressão de que o dever fora cumprido. Eu escrevia "Não tenho tempo" e coisas do tipo. Era a tarefa cumprida com apenas uma frase, o dia preenchido com alguma frase. Enganação. Dupla enganação.

Porra, eu era uma criança e tinha que ter tempo. Segundo, porque aquilo que ficava registrado ali não era registro nenhum, era uma repetição da preguiça. Confesso isso agora querendo espantar os fantasmas e pretendendo não cometer o mesmo erro/pecado.

Que se fodam as folhas em brancos. E as telas em branco... Quando eu não quiser escrever, não vou escrever nada. E quando eu o fizer, quando preencher o espaço, a idéia não é só afastar a culpa. A idéia nunca mais vai ser fingir que estou fazendo algo. Agora, é de verdade.

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